domingo, 17 de junho de 2012

 Caros amigos, 

A vida inteira - quando aprendi a escrever - pus meus sentimentos no anonimato. Medos, fugas, alegrias, tristezas, dentre tantos outros sentimentos me consumiam. Extravasava nas linhas carcomidas de um papel em branco, jogada a esmo e lá ficava. A universidade surgiu, o aprimoramento verbal foi, aos poucos, sendo compreendido, mas o silêncio ainda era sepulcral. A escrita existia, mas o desnudamento através do olhar do outro era algo inatingível para mim. Essa era, talvez, minha prisão. Somente em 2000, quando passei a estudar o erotismo poético, por ter conhecido um dos críticos mais conceituados do país, o alagoano (e meu amigo!) Gilberto Mendonça Teles, é que pude me desnudar dos pudores verbais. Nosso encontro, pré-destinado, enviesado pelo tempo, dá-se até hoje com pequenos trocadilhos, frases curtas, porém carinhosas, cumprimentos natalícios entre dois escritores - Valdenides Cabral e Gilmete - e uma aprendiz da escrita, pois acho que ainda não aprendi a mestria dessa tão calorosa arte. Talvez pelo fato de ter lido escritores que expunham seus desejos interditos, ou não, talvez por um eu-lírico apaixonado e preso na voz doutrem, talvez pelo simples medo dos julgamentos mundanos em comparar poeta e pessoa é que me afogo no escuro, no esmaecimento, no oco, no nada. Pela primeira vez me exponho a julgo. Pela primeira vez mostro meu lado escritora, se é que um dia eu possa ser, e "na galáxia do prazer" verbal deixo fruir minhas mal traçadas linhas de uma poetisa que, aos poucos, se desnuda num branco angelical. Gostaria ainda de lembrar que nas dores existenciais de Florbela Espanca, nos heterônimos de Fernando Pessoa, na astúcia escritual do Caio Fernando de Abreu, no desnudamento desses meus dois amigos de profissão e coração ao escrever suas sensações, inspiro-me e agredeço.

Começo minha escrita a partir daquela que tanto embalou meus mais lindos sonhos pueris. Deleite-se! Viva!

 

Eis, pois, que me abro em compleição... Eis que ora sou eu, 
mas ora aquela que noutros planos em mim se estabeleceu
e noutras horas nada disso me pertence: 
"finjo tão completamente que chego a sentir dor"


Nudez altiva

Nada vê. Nada diz. Ignore-a!
Tanto a aprender nessa terra carcomida!
Mas o furor estampa uma nudez
Daquele que acaba de nascer.
Nesse encontro dual

Esqueça a alteridade
Limite solidariedade
Execre o ensinamento
Num afã de novos horizontes
Quando este tão perto está!
Vá! Desnude-se e viva!

Um tempo
 
Dê tempo ao amor!
O que rompe uma relação é tão somente a impetuosidade e a rotina.
Promova sempre um novo amanhecer.
Ame verdadeiramente, despudoradamente.
Simplesmente ame...
Deixe-se levar pela alegria e menos pelos dissabores diários dos outros, que interferem tanto na vida a dois.

Ecos

Ressoa minha dor gutural,
Ouço vozes inaudíveis.
Como o som que ecoa de tua boca.

Já não mais ouço,
É sepulcral e em meu âmago adormecido,
Ouço o som dos ventos que bate à porta.
 
Alívio

A única coisa que precisamos é amar e sermos amados verdadeiramente.
Todo o desespero e desequilíbrio humano residem nisso.
Se sei que amo incondicionalmente e se sou amada exatamente por quem sou, livre de julgamentos,
aí sim posso respirar suavemente auto desconhecido.

Teu sorriso

Ver teu sorriso estampado em teus olhos
Acalanta meu coração
Apazigua meus dissabores
Aquieta a dor sufocante
Das inquietações lancinantes
Onde a distância é a única culpada!
 
Dor
 
Por desgraçadamente sofrer tua ausência,
e me punir com risos falsos.
Gritar teu nome e saber que não me ouves,
Sussurrar aos ventos o que sinto,
e não chegar a galope em teus ouvidos:
É que me encontro no desencontro.
 
Caída

O orvalho que cai...
nada mais êfemero
nada mais intangível
são lágrimas da natureza
gritando sua dor atroz.

Lágrima

Quando vi uma lágrima cair,
deslizando por sobre teu rosto
Afaguei, deslizei minhas mãos
E fiz de tua dor
um eterno momento a dois.

Suspiro

Sinto esvair-me em dor,
mas tua ausência torna-se maior,
punge-me o peito carcomido
num sufrágio enegrecido
tomando-me o último suspiro.

Oh, ausência desumana!
Por que vestes lânguidas?
Reveste-me da mortalha olvidável.
Não vê em que mortalha me aprisionou?
Quem sabe num soslaio me desperte!

Finja que não me vê,
Admita seus sentimentos
Sufoque todo o ardor
que carcomidamente me consome.

Infinito

O lampejo de soslaio
Brilha no infinito
Mas não o vejo
Sei que ali me espreita
à espera de um momento de sobriedade.

Quem me dera acordar
desse sonho intangível!
Ouvir o canto uníssono
de pássaros, sirenes serelepes,
e pequeninas criaturas
Escutar o sussurro de teus lábios sobre os meus!

Um sonho talvez
 
Talvez queira acordar num mundo de sonhos
onde só veja nuvens amenas
Talvez queira acordar num dia de chuva
e veja nada mais do que um orvalhar sobre a relva
Talvez não queira acordar

Mas sonhar enlevada pelos balanços teus
Talvez ao despertar, queira acordar
no arroubo dos abraços meus.
Acordai, mas do balanço frenético
Teu cárcere eterno
Duma algoz ébria dos desejos teus.

Refém

Vejo a vida me levar peremptoriamente
Num precipício de conflitos existenciais.
Corpo finito nas lembranças que não se findam
Irrompem em reminiscências inesquecíveis.
E absorta vivo pacientemente.

Mas pouco é o sentido!
Quão querido!
Sim! Eis-me aqui:
Refém dos prazeres teus!



Simplesmente o prazer da fruição verbal...